A presidente Dilma Rousseff disse nesta
sexta-feira (22) em Fortaleza que a obra de transposição do São
Francisco "está andando". Na prática, contudo, o cenário é outro:
rachaduras, remendos, mato e trabalhos em ritmo lento.
A Folha percorreu nesta semana os dois
canais da obra --o leste e o norte. Encontrou placas de concreto
rachadas sendo remendadas, em vez de substituídas por novas peças.
A transposição ganhou recentemente
contornos eleitorais. O presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG) exibiu
trechos abandonados no programa nacional do partido, o que levou Dilma a
cobrar a aceleração das obras.
Na sexta-feira, em Fortaleza, a presidente se referiu à obra mesmo sem ser questionada.
"Também a interligação do São Francisco
[está andando] antes que você fale para mim que a interligação está
parada", afirmou a jornalistas.
A conclusão, prevista inicialmente para
2012, foi remarcada para dezembro de 2015. A construção dos 477 km de
canais é a mais cara ação federal de combate aos efeitos da seca no
Nordeste.
O orçamento total pulou de R$ 4,6 bilhões
para R$ 8,2 bilhões desde o início dos trabalhos, em 2007, durante o
segundo mandato de Lula.
Em Floresta, no sertão pernambucano, uma
imagem resume o cenário atual: num canal de concreto, vê-se a carcaça de
um bode, animal resistente à caatinga, mas que não suportou a uma das
piores secas dos últimos 60 anos.
Quando prontos, os dois canais levarão
parte da água do São Francisco a rios e açudes de quatro Estados (CE,
PE, PB e RN). Para que a água chegue de fato aos sertanejos, são
necessárias adutoras, instaladas pelos Estados.
Em 2007, a obra só começou após o governo
derrubar ações na Justiça que denunciavam impactos ambientais e negociar
o fim da greve de fome de um bispo da Bahia.
A imprecisão dos projetos básicos exigiu
novas licitações, renegociação de contratos e interrupção do serviço
pelas empreiteiras. Os únicos trechos prontos são dois lotes feitos pelo
Exército.
Quem toca a obra é o Ministério da
Integração Nacional, até outubro comandado por Fernando Bezerra,
indicado pelo provável candidato à Presidência e governador Eduardo
Campos (PSB-PE).
Em quatro canteiros, há trabalho 24 horas:
Salgueiro e Cabrobó, em Pernambuco, Jati, no Ceará, e São José de
Piranhas, na Paraíba.
Em geral, porém, o ritmo é lento nos
locais onde a obra foi retomada. Operários ainda são contratados em
cidades como Sertânia (PE).
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