Por Zizo Mamede
Lá de Brasília repórteres destacam que o Congresso Nacional quer retirar dos conselhos regionais de medicina a prerrogativa da conceder registro provisório para profissionais estrangeiros trabalharem no país. Os conselhos dos médicos brasileiros simplesmente não liberam o documento para que espanhóis, cubanos e outros médicos latino-americanos atuem no programa Mais Médicos. Está em jogo para os conselhos de medicina uma brutal reserva de mercado para uma das categorias mais elitistas do serviço público no Brasil. – A população mais pobre e desassistida “que se exploda”.
Mas, do próprio Congresso Nacional, que está querendo enfrentar o corporativismo dos médicos, vieram maus exemplos, como a absolvição da deputada Roriz e do deputado e aprisionado Donadon. Sob o manto do voto secreto, uma parcela dos congressistas preservou o colega para não cortar no próprio corpo. – O deputado paraibano Wellington Roberto teria chegado a defender o colega, argumentando que a família do aprisionado precisaria da remuneração parlamentar para sobreviver.
Outro dia o país assistiu perplexo algumas falas no âmbito do judiciário sobre os salários diferenciados a que magistrados seriam merecedores, além dos privilégios de diárias, residência paga pelo erário, viagens a trabalho, em meio a outros penduricalhos.
Não é de hoje que categorias e grupos, dentro ou fora do Estado, agem com espírito de corpo e em defesa de seus exclusivos interesses. Essa atitude corporativista não significa necessariamente algo ruim para a sociedade. Muitas conquistas que se tornaram universais, como os direitos trabalhistas (jornada máxima de trabalho, repouso remunerado, férias, salário mínimo, aposentadoria, etc.), foram alcançadas graças às lutas que um dia foram desencadeadas isoladamente, em um cotonifício, numa gráfica, num estaleiro, em um levante camponês.
As bandeiras corporativistas sempre trazem um rosário de reivindicações. Na maioria das vezes põem na pauta questões de interesse geral para justificar, legitimar e até instrumentalizar a sociedade para as suas causas específicas. Quando o reajuste, o aumento salarial ou aquela aposentadoria especial é atendida, a luta prontamente se esvai com aquele elenco de pautas secundárias e acessórias. – Não é a toa que a população acha-se indiferente às lutas sindicais ultimamente.
Obcecadas por suas agendas, as corporações muitas vezes perdem a noção dos limites aos seus interesses. Greves desgastantes, principalmente nos serviços públicos, sem um trabalho de discussão com a sociedade, comumente contraem a oposição da maioria das pessoas, quando não a indiferença da própria categoria. Quando um segmento ou grupo quer impor o seu exclusivo interesse a toda a sociedade, uma luz amarela acende, quando não uma luz vermelha.
Os direitos não esbarram para uns quando começam os direitos dos outros. Os direitos se interpenetram e se enovelam em arranjos complicados. A solução para esses choques de interesses, que nunca levam todos a conquistar tudo o que pretendem, exige saídas com equidade, com diálogo e com democracia. – O boicote de uns contra todos equivale à chantagem ou ao uso da força. Isto não é saída.
Ao antigo provérbio, atribuído aos portugueses, “Mateus, primeiro os teus”, se contrapõe uma máxima ainda mais antiga dos persas e dos hebreus: “Não faça ao outro aquilo que não queres para ti mesmo“.
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